
Uma caminhada entre livros, sonhos, memória, território e os mistérios da palavra.
Por Micaela Cajazeira
ANTES DO LIVRO, HOUVE A MENINA ´por Micaela Cajazeira | Escritora
Toda caminhada literária começa muito antes da primeira página escrita. A minha teve início no chão fértil da infância, quando o mundo ainda parecia grande demais para caber dentro dos olhos — e, justamente por isso, cabia inteiro dentro de um livro.
Não foram as estradas de terra que primeiro me ensinaram a viajar, mas as enciclopédias, os poemas e as histórias que abriam janelas para lugares onde eu nunca havia estado. Muito cedo, descobri que uma página podia ser passagem, que uma palavra podia carregar um mundo e que ler era, de alguma maneira, sair de si sem deixar de ser quem se é.
Vieram Camões, com a solenidade dos versos; Augusto dos Anjos, com sua matéria bruta e seu espanto diante da existência; Cecília Meireles, com sua delicadeza quase translúcida. Aos poucos, fui construindo uma pátria íntima feita de palavras, perguntas e silêncios.
Depois, a poesia deu as mãos à prosa. Herman Hesse levou-me para dentro, enquanto Jean M. Auel me conduziu a um tempo ancestral, onde a terra e o corpo pareciam falar a mesma língua. E a curiosidade, que nunca soube respeitar fronteiras, levou-me ainda mais longe: à filosofia, à mitologia, aos símbolos e aos mistérios que habitam aquilo que não se deixa explicar inteiramente.
Havia, sobretudo, um caderno sagrado onde eu registrava os sonhos que me visitavam durante a noite. Eu anotava imagens, lugares, personagens e acontecimentos que, ao despertar, pareciam pertencer a uma realidade paralela. Tentava compreendê-los, decifrá-los, encontrar alguma lógica naquela linguagem que não obedecia às regras da vigília.
Aos poucos, percebi que os sonhos talvez fossem uma outra forma de dizer aquilo que, acordada, eu ainda não sabia nomear. Foi nessa região entre a vigília e o sonho, entre o visível e o invisível, que comecei a compreender que o real e o imaginário podiam ser faces de uma mesma moeda simbólica. E talvez tenha sido ali, sem que eu soubesse, que a literatura começou a me escolher.
Por isso, quando dei ao mundo O Homem que Virava Toco, eu não estava exatamente começando. Estava continuando.
Ali plantei a primeira semente oficial da minha voz narrativa e dei morada literária às vozes, aos mitos, às memórias e à terra que me formaram. Foi também uma maneira de devolver à minha própria origem aquilo que durante tantos anos havia vivido dentro de mim.
Depois, os espelhos se abriram em Os Reflexos Invisíveis de Catarina.
A escrita se voltou para outros territórios: a memória, o sonho, a identidade, a fragmentação e as muitas versões que podem habitar uma mesma mulher. O que antes eu buscava nas histórias do mundo passou a se mover também dentro das personagens — e dentro de mim.
Se o primeiro livro nasceu olhando para a terra, o segundo aprofundou o olhar para dentro.
E talvez essa seja a linha secreta que atravessa toda a minha escrita: a tentativa de alcançar aquilo que existe por trás da superfície.
Quem somos quando o espelho deixa de devolver uma única imagem? Nenhum desses livros, contudo, nasceu sozinho. A minha literatura também é feita de encontros. É um trabalho de muitas mãos, muitos afetos e muitas presenças. Porque escrever pode ser um gesto íntimo, mas um livro nunca nasce de uma única vida.
Rafael Barreto transforma em imagem e matéria aquilo que muitas vezes existe primeiro apenas como sensação. Sua sensibilidade artística acompanha a identidade visual dos meus livros e ajuda a construir, na capa, a primeira porta de entrada para cada universo.
Bianca Silva também faz parte dessa caminhada. No primeiro livro, esteve comigo como leitora crítica e mediadora do lançamento. Em Os Reflexos Invisíveis de Catarina, sua presença ganhou novas formas, alcançando a orelha e a contracapa, como quem ajuda a abrir ao leitor uma fresta para dentro da obra.
E há aqueles que sustentam os dias que tornam a escrita possível: João Antônio, Olga, Stella e Heitor, minha família, meus amigos e todos aqueles que conhecem os bastidores que o livro não revela — as horas diante da tela, as páginas reescritas, as dúvidas, o cansaço, os cafés, as conversas, as interrupções e os recomeços. Porque um livro pode carregar um único nome na capa, mas nunca nasce de uma única vida. Hoje, quando olho para trás, consigo enxergar uma linha invisível unindo tudo.
A menina que lia enciclopédias.
A menina que descobria o mundo pelos versos.
A jovem que colecionava perguntas.
A menina dos sonhos anotados em cadernos.
A leitora de poesia, filosofia e mitologia.
A mulher que passou a transformar memória, território, símbolo e imaginação em literatura.
A escritora que continua procurando, na palavra, aquilo que ainda não encontrou outro nome.
Talvez escrever tenha sido, desde o começo, uma maneira de continuar conversando com aquela menina e talvez cada livro seja uma resposta provisória às perguntas que ela começou a fazer há tantos anos.
Ainda existem histórias que não encontrei.
Personagens que ainda não conheço.
Páginas que ainda não escrevi. E lugares dentro de mim que talvez somente a literatura consiga alcançar. Continuo caminhando. Com os pés na terra e os olhos voltados para dentro.
Entre a memória e o sonho.
Entre o que se vê e aquilo que insiste em permanecer invisível.
Entre a menina que um dia abriu um livro e a mulher que hoje escreve os seus próprios.
Porque escrever é, no fim das contas, transformar aquilo que nos atravessa em alguma coisa que possa, um dia, atravessar outra pessoa. E talvez seja esse o verdadeiro começo de toda literatura: quando aquilo que nasceu dentro de nós encontra, finalmente, alguém do outro lado da página.
Barra da Estiva, BA, 08 de outubro de 2026.
Micaela Cajazeira
