O Brasil vive um momento decisivo no debate sobre equidade racial e reparação histórica. A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro de 2025, que reafirma a centralidade das políticas públicas de combate ao racismo estrutural e de promoção da igualdade racial, amplia a responsabilidade do Estado e da sociedade na construção de caminhos concretos de justiça social.
Esse movimento, que ganha repercussão nacional, não pode ficar restrito às instituições centrais. Ele precisa alcançar o território onde vivem os povos quilombolas, os povos de terreiro, as comunidades negras e tradicionais que sustentam, historicamente, a cultura e a identidade do país.
A reparação não é apenas econômica. Ela é também reconhecimento, pertencimento, acesso aos espaços de decisão e valorização dos saberes ancestrais.
E foi exatamente isso que se materializou no 1º Encontro Macroterritorial de Desenvolvimento Rural, realizado em Feira de Santana (BA), nos dias 23 e 24 de abril de 2026, promovido pela Coordenação Estadual dos Territórios (CET).
Ali, o território deixou de ser objeto de política e passou a ser sujeito de fala.
Entre os momentos mais simbólicos do encontro, destaca-se a participação de Mestre Satu (Saturnino Dias Nery) e Mestra Dona Tonha, da Comunidade Quilombola de Tocos, no município de Antônio Cardoso/BA.
Pela primeira vez, mesmo com suas idades avançadas e uma vida inteira dedicada à cultura popular e à preservação dos saberes tradicionais, os mestres ocuparam um espaço institucional de diálogo como esse. E mais do que presença, houve reconhecimento.
Suas trajetórias deixaram de ser apenas memória oral e passaram a ser compreendidas como patrimônio vivo, como conhecimento legítimo e como base concreta para a formulação de políticas públicas.
O que se viu naquele espaço foi algo simples, mas profundamente transformador: o sentimento de pertencimento.
Quando mestres e mestras, historicamente invisibilizados, passam a se enxergar como parte do processo político, a política se humaniza, o território se fortalece e a democracia se amplia.
Esse movimento dialoga diretamente com o que o STF reafirma: não há igualdade sem o reconhecimento das desigualdades históricas.
Diante disso, torna-se urgente avançar em políticas públicas de reparação que não sejam apenas simbólicas, mas estruturadas, contínuas e efetivas garantindo a inclusão dos povos tradicionais nos espaços de decisão, o reconhecimento institucional dos mestres como agentes de conhecimento e o financiamento adequado das ações de cultura viva nos territórios.
Nesse contexto, a PIMM Produção e Eventos, coletivo cultural certificado pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura (Cultura Viva), sob o ID 1637639, vem se empenhando na construção de caminhos mais ágeis, eficazes e comprometidos com a realidade dos territórios, atuando diretamente para que os processos de salvaguarda, reconhecimento cultural e valorização de mestres e fazedores de cultura na ponta das políticas públicas aconteçam com menos burocracia e maior efetividade.
Não se trata apenas de preservar cultura trata-se de garantir direito com dignidade e tempo adequado à realidade de quem sustenta esse patrimônio vivo.
Também é importante registrar o reconhecimento ao Poder Executivo do Município de Antônio Cardoso/BA, que tem contribuído para valorizar a trajetória dos Mestres Satu e Mestra Tonha, reconhecendo sua importância histórica, cultural e social para o município e para o Brasil.
Esse tipo de postura demonstra que é possível avançar quando há compromisso institucional aliado ao diálogo com o território.
O caminho está aberto.
Agora, o desafio é transformar decisão judicial em política pública na ponta, transformar cultura em direito garantido e transformar presença simbólica em participação real.
Quando mestres entram na roda, quando o território fala e quando a escuta acontece, a história começa a ser reescrita não como memória, mas como futuro.
“Quem honra seus ancestrais nunca caminha sozinho.”
Adúpẹ́. Axé.
Foto: 1° Encontro Macroterritórial de Desenvolvimento Rural
Foto: PIMM
Por Paraguai Santos







